“Shino Can’t Say Her Name”: a juventude é só o ponto de partida

07/21/2021

Abrir um mangá de Shuzo Oshimi é o mesmo que sair na rua quando uma tempestade está por vir. Sabemos que há um risco de congelarmos até o osso, terminarmos a noite com um blecaute e ainda acordarmos no dia seguinte com uma dor de cabeça.

Assassinato, vandalismo, misantropia, tortura: nada parece estar além da imaginação do autor de As Flores do Mal

Assim, quando soube que outra de suas obras estava para ser lançada no ocidente, me preparei para o pior. Qual foi minha surpresa ao descobrir que “Shino-chan wa Jibun no Namae ga Ienai” (em inglês, Shino Can’t Say Her Name) pouco tem a ver com seus outros trabalhos.

Originalmente publicado entre 2011 e 2012, o mangá é a prova que Oshimi tem um coração tão grande quanto sua capacidade de nos chocar. E uma versatilidade artística digna dos maiores autores.

O título deixa poucas dúvidas quanto ao enredo. Nossa protagonista, Shino Oshima, é uma garota que não consegue pronunciar seu próprio nome.

Ansiedade? Trauma? Distúrbio de fala? A própria Oshima não parece ter certeza. Tudo o que sabe é que sente espasmos quando expressa certas palavras, e seu nome é uma delas.

No primeiro dia de aula, durante a cerimônia de apresentação, essa dificuldade a transforma na piada de toda sala.

Talvez sejam apenas os flashbacks de Heaven que custam a me sair da mente; talvez, o fato de outro mangá de Oshimi sobre uma personagem gaga envolver o gaslighting de um filho pela mãe. Quando abri Shino-chan, tive a certeza de que estava diante de outra experiência traumatizante sobre o bullying.  

Os ingredientes estão todos lá. Logo após o vexame em seu primeiro dia de aula, Oshima cai sob a asa de Kayo, uma rebelde boca-suja com um pôster de Mundo Fantasma na parede de seu quarto. Outro colega, um garoto chamado Kikuchi, faz os amigos gargalharem com uma imitação de sua gagueira.

Não é difícil pensar que Kikuchi se tornará seu bully, e Kayo, uma versão light de Nakamura, chantageadora que leva o protagonista de Flores do Mal a um caminho de auto-destruição.

Mas  Shino-chan é um mangá com um rumo próprio. Tão inesperada, na verdade, que é até difícil acreditar que ainda estamos em uma história de Oshimi.

Kayo pode ser uma rebelde, mas canaliza sua energias em uma devoção pelo violão e pelo som de Bob Dylan. Kikuchi faz piadas de mal gosto, mas não está claro se tem noção do que realmente diz. Se Oshima fala de menos, o garoto parece amaldiçoado a falar demais – para a confusão, e a mágoa, de quem quer que o escute.

Kayo também, aprendemos, tem dificuldades em se expressar. Aspirante a roqueira, ela é incapaz de cantar afinado. Uma tarefa que logo descobre que Oshima é capaz de desempenhar. Como tantos gagos, sua dificuldade não o afeta no canto da maneira como o faz na conversa do dia a dia.

Há aqui ecos óbvios de Solanin e A Voz do Silêncio, impregnados de um humor negro que poucos além de Oshimi teriam coragem de botar no papel (quando Kayo sugere que Oshima use um caderno para se comunicar, a primeira palavra que escreve é “pinto”).

Seu paralelo mais próximo, na verdade, é Kokosake, longa de Mari Okada sobre uma garota que recobra a voz por meio da música. Você sabe que o mundo é uma caixinha de surpresas quando o autor de Flores do Mal e a escritora de Anohana podem ser citados em uma única frase.

A vida como ela é

As semelhanças com Okada vão além do enredo. Embora o cinema da autora nem sempre acerte em cheio, seus melhores trabalhos são justamente aqueles em que se inspira na sua própria juventude. Sem Mari, aluna problema que faltava nas aulas, não teríamos Jintan, o inesquecível protagonista de Anohana.

Se a semelhança entre os nomes (Oshima/Oshimi) não deixa claro, Shino-chan é igualmente baseado em experiências reais.

Quem nos conta é o próprio autor, num posfácio que acompanha o mangá. Quando criança, ele descobriu que sofria de disfemia tônica, um tipo de distúrbio de fala que provoca espasmos no começo das frases.

Essa condição lhe trouxe muita dor de cabeça na adolescente, mas nem tudo foram lágrimas. Segundo ele, ter dificuldade em se comunicar o ensinou a ouvir e a observar. Foi graças a isto que aprendeu a “ler” as expressões faciais das pessoas, algo que se tornou de imensa utilidade quando se pôs a desenhar mangás.

É um sentimento que sua história sucede em provocar, mérito de um final tão doce e poderoso que me impede até de falar a respeito. Não porque dependa de spoilers, mas porque contém uma epifania. Como um bom contista, Oshimi termina sua história com uma cena que nos faz reavaliar tudo o que pensávamos das suas personagens. E, com alguma sorte, também das pessoas de carne e osso do lado de cá da página.

“Eu não usei as palavras ‘gagueira’ ou ‘distúrbio de fala’ em momento algum nesse mangá. Por quê? Porque eu não queria que essa história se tornasse apenas sobre qualquer uma dessas coisas.

Conforme eu o desenhava, eu pensei: “desde que ele possa ressonar com qualquer um, mas ainda sim permanecer uma história sobre uma única pessoa, está bom o suficiente para mim”.

Histórias sobre adolescentes muitas vezes são uma desculpa para adultos extravasarem suas próprias fantasias. Seja ao retrarem experiências que temem ou desejam – envolvendo sexo, drogas ou violência– seja ao colocarem nos anos escolares num pedestal, como se o auge da nossa vida terminasse aos dezessete anos.

Shino-chan não é sobre nenhuma dessas coisas. Suas personagens não experimentam grandes libertinagens, grandes reviravoltas, acontencimentos excepcionais. Nem precisam de tanto para nos emocionar. Para elas, a adolescência é valiosa porque é apenas o ponto de partida; a estaca zero que lembramos com carinho não porque foi a mais importante, mas porque foi a que estourou o casulo dos adultos que viríamos um dia a nos tornar.

É difícil apontar o que é mais tocante. O fato de um mangaká conhecido por trabalhos tão misantrópicos revelar um lado tão humano ou o fato de ter decidido compartilhá-lo de maneira tão íntima.

Seja como for, só temos a agradecê-lo.

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