Por que imaginar o fim do mundo não é o suficiente

04/01/2025

Por que imaginar o fim do mundo não é o suficiente_Vinicius Marino_Finisgeekis

Qual o propósito de contar histórias quando vivemos à beira do fim do mundo?

Essa não é uma pergunta que eu teria feito quase dez anos atrás, quando li Dead Dead Demon Dededede Destruction, de Inio Asano, pela primeira vez.

Em uma era pré-Covid, em que eu próprio ainda carregava o otimismo da vida universitária, era difícil pensar em “fim do mundo” como qualquer outra coisa senão um recurso narrativo.

Talvez seja por isso que os primeiros volumes do mangá não me impressionaram de imediato. 

A premissa central era criativa o suficiente: duas garotas decidem tocar sua vida normalmente, muito embora o mundo em que vivem seja virado de ponta-cabeça por uma invasão alienígena. 

Um épico de ficção científica narrado por duas figurantes: jovens mais interessadas em se formar na escola e curtir seu cotidiano que testemunhar o episódio mais relevante da história da humanidade.

Algo na sua execução, contudo, me pareceu tão fora de lugar quanto seus extraterrestres disfarçados de humanos. E quanto mais os anos passaram – e mais eu próprio me distanciava do Vinicius deslumbrado que escreveu absurdos como este – menos sua mensagem me parecia relevante diante das questões do presente.

Estamos mesmo felizes?

Dead Dead Demon tirou sua filosofia do trabalho do sociólogo pop Noritoshi Furuichi, que fez fama em 2011 afirmando que os jovens japoneses viviam mais felizes que nunca. Isto a despeito do terremoto que provocou a catástrofe de Fukushima e do fato da economia japonesa ir de mal a pior.

Em seu bestseller, chamado A Juventude Feliz de um País Desesperado, Furuichi argumentou que “a despeito das alegações de disparidade e desigualdade geracional na sociedade japonesa, 70% dos jovens japoneses estavam satisfeitos com sua vida”. 

Livro de Furuichi, em um dos easter eggs do mangá de Dead Demon.

Não sei se isto um dia foi verdade para o Japão. (Por algum motivo, ler a obra de Mieko Kawakami, Sayaka Murata ou Natsuko Imamura me faz acreditar que a resposta seja um sonoro “NÃO”).

O que sei é que, sem dúvida, este não é o nosso caso nos anos 2020s, espremidos como estamos entre uma geração ansiosa à mercê de dispositivos eletrônicos e uma geração de falidos viciados em bets e no jogo do tigrinho. Se jovens estivessem ‘felizes’, não precisaríamos de termos como ‘ansiedade climática’, e adolescentes que esfaqueiam suas colegas não seriam o mais novo monstro de nossas histórias de terror.

Diante de um cenário como esse, a leitura menos caridosa que eu fazia da mensagem de Dead Demon – “dane-se o futuro, vamos nos divertir!”  – me parecia a pior resposta possível às angústias do presente. 

Talvez, se formos de fato invadidos por alienígenas, seja nosso dever prestar atenção no que acontece. Mesmo que isto custe a oportunidade de experimentar aquele sorvete ou sair num date com o coleguinha. 

Então algo aconteceu.

O mundo, de fato, acabou. Duas vezes, na verdade. A primeira de supetão, com a pandemia de 2020. A segunda em um lento declínio embalado pela Covid longa, a ascensão global do tecnofascismo, a IA generativa e a catástrofe climática. 

E Dead Dead Demon, dez anos após o lançamento de seu mangá, ganhou uma adaptação às telas. 

Ao acompanhar a história novamente à luz dos últimos acontecimentos – do começo ao fim, desta vez – peças que eu sequer sabia que estavam soltas no meu cérebro finalmente se encaixaram.

E entendi que devia um pedido de desculpas a Asano.

O problema com o fim do mundo

A ficção tem o péssimo hábito de interpretar o fim do mundo em termos da extinção da nossa espécie. Mas, como nos lembra um certo familiar de uma certa feiticeira, um ‘mundo’ é algo diferente que um ‘planeta’, e não é necessário que a Terra se exploda para que tudo o que conhecemos chegue ao seu fim.

Como a pandemia nos ensinou do jeito difícil – e como nosso presente em crise não nos deixa esquecer – o apocalipse não é um motivo forte o suficiente para nos fazer perder o café da tarde, o boleto do final do mês, o casamento do nosso amigo, o lançamento daquele livro que passamos os últimos cinco anos escrevendo. 

Não fomos feitos para viver em uma eterno cão-come-cão, arrancando nacos de carne da boca do vizinho. Alguma normalidade precisa existir, do contrário não haveria lá propósito em ‘viver’.

Não se trata de escapismo ou de prioridades erradas. Isso acontece porque nós vivemos socialmente, e as pessoas que nos cercam, que nos amam, que precisam de nós, que nos aporrinham, são tão parte de nós quanto nossos fios de cabelo ou as hemácias no nosso sangue. 

É algo que historiadores de grandes desastres sabem bem disso. A Grande Peste do século XIV pode ter matado mais de 60% da população europeia (estimativas variam drasticamente). Mas, olhe nas fontes da época, e você encontrará mais registros de pessoas nascendo, trabalhando, rezando, guerreando, tocando suas vidas, do que exortações do fim de mundo.

Figura da crônica de Gilles Li Muisit (Bibliothèque royale de Belgique, MS 13076-77, f. 24v) retratando o enterro de vítimas da peste. Trata-se de uma das poucas imagens medievais da pandemia (a maioria das que encontramos internet afora são de outras doenças). Se esta praga foi tão fulminante, por que é que as pessoas não a retrataram mais? A ausência de máscaras N95 na nossa própria cultura pop é uma pista.

Não sei se Asano tinha isso em mente em 2014, quando deu vida aos primeiros quadros de Dead Dead Demon. Mas não sou capaz de ler o mangá hoje, ou assistir à sua adaptação, sem misturar conteúdo e contexto.

Há algo de belo e destemido na forma como Kadode e Ouran, suas protagonistas, se agarram aos últimos fiapos de normalidade enquanto seu mundo lenta, mas certeiramente, se desmancha. É este sentimento que faz com que o momento inevitável de se posicionar diante do fim, quando chega, é tão poderoso.

É uma pena, porém, que o anime não saiba o que fazer com sua nobreza de espírito. A despeito de tudo, o anime de Dead Dead Demon essencialmente niilista (se o mangá fez diferente, leitores que me corrijam). Sua humanidade não colapsa porque os alienígenas são superiores, mas porque ela é podre em sua essência. A invasão é apenas a cutucada que fura a casca da ‘ordem’ e do ‘progresso’ e escancara quão oca nossa sociedade realmente é.

Quando Asano apela para viagens no tempo e mundos paralelos para resolver os enroscos de seu enredo – e dar às suas personagens alguma espécie de final feliz – saímos com a sensação de que não se trata apenas de conveniências da ficção científica. Dead Dead Demon parece convencida de nada além de uma borracha cinematográfica é capaz de pôr os cacos da humanidade de novo no lugar.

Implícita no enredo está uma pergunta que a trama não sabe responder: se nada presta no nosso mundo, qual sentido há em preservá-lo? Sim, é importante vivermos nossas pequenas alegrias.  Mas se não conseguimos vislumbrar qualquer futuro, qualquer direção para onde nossa vida aponta, qual a diferença desta rotina e uma sentença penal?

Cena de Paradise, série em que a humanidade “sobrevive” a um evento de extinção construindo uma cidade falsa em um bunker subterrâneo. Até que ponto passar o resto de nossos dias dentro de uma caverna realmente é ‘viver’?

Esse não é um problema apenas de Dead Demon. Estamos tão obcecados pelo fim do mundo que confundimos engajamento com entreguismo. 

Como um animal atordoado pelos faróis de um caminhão enquanto cruza a estrada, estamos mais encantados com o terror do que comprometidos a escapar dele.

De onde vem a facilidade para inventar tantas versões diferentes para o fim do mundo, acompanhada de tanta dificuldade para conceber uma mísera forma de reconstruí-lo?

Será que realmente sabemos como nosso mundo funciona – a ponto de pagarmos, arrogantemente, de profetas de seu fim – se não somos capazes sequer de colocar suas peças de novo no lugar? 

Essas perguntas, obviamente, são uma pegadinha. Escritores, diretores, animadores, game designers e artistas de toda espécie estão há décadas imaginando futuros – e presentes – alternativos.

Mas, para encontrá-los, é preciso procurar em outro tipo de história.

Que provavelmente merece um próximo artigo. 

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